Diferentemente das outras cúpulas mundiais, Rio 92 e
Johannesburgo 2002, que construíram caminhos para
o futuro, Copenhague 2009 decidirá os próximos passos
da economia global. Metas oficiais de redução de emissões,
inclusive a brasileira, comprovam isto. Copenhague não é um
evento, mas um momentum quando fatos marcantes revelam as
transformações em curso, governantes, empresários, cientistas,
ambientalistas e artistas, lutam juntos por saídas da economia
de alto carbono, com custos e prazos já definidos.
A partir de Copenhague, o Ebitda, indicador usado para
medir a musculatura e a capacidade de geração de caixa das
empresas, ganha um “C” passando a Ebictda (Earnings Before
Interests, Taxes,”Carbon regulation”, Depreciation and
Amortization), incluindo a emissão de carbono (representante
dos gases de efeito estufa) como item na avaliação do potencial
das instituições.
O componente “C”, dotado de inteligência nova, passa a
integrar os sistemas de gerenciamento de risco das empresas,
monitorando a parcela de responsabilidade nas 45 gigatone-
A partir de Copenhague, o EBITDA ganha um “C” passando a Ebictda (Earnings
Before Interests, Taxes, Carbon regulation, Depreciation and Amorti zation).
ladas de CO2 equivalente/ano de emissões globais, indicando
oportunidades de atuação na economia de redução de carbono
que, ao inverter a curva de crescimento de emissões até 2020
criará mercados globais de US$ 2,5 trilhões/ano em produtos
e serviços de baixo carbono.
Pressões sem precedentes em Copenhague também levam
a crise climática às portas das bolsas de valores onde massas
de capitais ainda fluem livremente, sem regras para o fluxo de
carbono. Ações negociadas em bolsas podem ser propulsoras
ou mitigadoras de mudanças climáticas e indicadores como
o “Carbon Index” e o “DCarb Index”, criados para medir o
nível de carbonização e descarbonização dos ativos negociados,
aumentando a transparência, são ferramentas simples para
guiar investidores, estimulando tendências de capitais para as
lucrativas rotas da descarbonização. Segundo o World Federation
of Exchanges (WFE), que reúne bolsas de valores de todo
o mundo, US$ 791 trilhões foram negociados globalmente
em 2008, incluindo derivativos, contratos cujo valor deriva
de outros ativos.
Após Copenhague, em 2010, o Brasil passará por outro
ajuste adotando oficialmente o modelo contábil do International
Financial Reporting Standards (IFRS), regras para balanços já vigentes em mais de 100 países, que modifica significativamente
o modo com que as corporações reportarão seus demonstrativos
financeiros, alterando a forma de apurar resultados e as análises
do mercado sobre o desempenho das empresas.
Enquanto demonstrativos da contabilidade tradicional
consideram meio ambiente e mudanças climáticas como
contingências remotas – externalidades –, o IFRS determina
que os ativos biológicos (tudo que nasce, cresce e morre), alterações
climáticas e seus impactos positivos e negativos sobre
o valor dos bens, sejam ajustados no balanço pelo fair value
(valor de mercado), o que pode alterar significativamente os
resultados e o nível de atratividade de mercado das empresas.
As novas regras influem diretamente no Ebictda e precisam
ser entendidas pela administração, afinal, além dos balanços, a
reputação e a imagem das empresas também serão afetadas.
Os ativos biológicos, ou seja, culturas variadas, canaviais
e produtos derivados, rebanhos e matrizes reprodutoras, florestas
plantadas cercadas pelas naturais (mais bem chamadas
de biofábricas por abrigar princípios ativos ainda não valorados),
são bens vivos que crescem ou engordam, e alguns são
commodities com preços oscilantes, terão que ser demonstrados
nos balanços pelo valor de mercado. O Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), por exemplo,
que financia bioativos da pecuária, florestas e alcoolquímica
derivada da cana, estará enquadrado nas regras do IFRS – e
os financiados também.
A União Europeia adotou as normas IFRS em 2005. O
Brasil, com o peso expressivo dos ativos biológicos, será um
special case para o International Accounting Standards Board (IASB), mentor das regras contábeis internacionais. Toda inteligência
contida nos parâmetros do IFRS ainda é insuficiente
para avaliar e demonstrar o fair value da maior biopotência
do planeta na economia global.
O relatório final da Comissão para Mensuração da Performance
Econômica e Progresso Social, formada por iniciativa
do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e coordenada pelos
cientistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi,
uma referência para o desenvolvimento sustentável, observa
a “contribuição” que cada país pode dar, individualmente,
para a “insustentabilidade global”. Diante da constatação da
Comissão fica evidente a contribuição que o Brasil pode dar
ao mundo com a valoração dos seus ativos ambientais, matriz
energética limpa e adoção de inteligência nova nas instituições,
credenciando-o a pleitear o recebimento de eco-royalties em
fóruns competentes das Nações Unidas.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em rota de descarbonização,
não usa mais papel e é o primeiro tribunal nacional
do mundo a só julgar processos digitalizados, um exemplo
da alta corte brasileira. Enquanto o governo brasileiro avança
no debate internacional estabelecendo metas de redução de
emissões, São Paulo promulga a lei da descarbonização e o
Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio
Vargas reúne empresas na Plataforma Brasileira Empresas pelo
Clima (EPC); bancos como Itaú e Bradesco e transnacionais
brasileiras como Natura, Braskem, Vale e Suzano, que já trabalham
com a visão do fluxo “C” no Ebictda, rebaixam suas
emissões controlando riscos e ganhando competitividade.
Exemplos sintomáticos de transição para a nova geração de
empresários reunidos em fóruns como o Comitê de Jovens
Empreendedores (CJE), da Fiesp, próximos comandantes das
empresas de baixo carbono.