Ano 9- nº 38
Outubro/ Novembro/ Dezembro 2009

Finanças
Ebictda com “C”,o efeito Copenhague

Por Eduardo Athayde

 
 


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A partir de Copenhague, o Ebitda,indicador usado para medir a musculaturae a capacidade de geração decaixa das empresas, ganha um “C”passando a Ebictda (Earnings BeforeInterests, Taxes,”Carbon regulation”,Depreciation and Amortization), incluindoa emissão de carbono (representantedos gases de efeito estufa)como item na avaliação do potencialdas instituições.Por Eduardo Athayde
 

Diferentemente das outras cúpulas mundiais, Rio 92 e Johannesburgo 2002, que construíram caminhos para o futuro, Copenhague 2009 decidirá os próximos passos da economia global. Metas oficiais de redução de emissões, inclusive a brasileira, comprovam isto. Copenhague não é um evento, mas um momentum quando fatos marcantes revelam as transformações em curso, governantes, empresários, cientistas, ambientalistas e artistas, lutam juntos por saídas da economia de alto carbono, com custos e prazos já definidos. A partir de Copenhague, o Ebitda, indicador usado para medir a musculatura e a capacidade de geração de caixa das empresas, ganha um “C” passando a Ebictda (Earnings Before Interests, Taxes,”Carbon regulation”, Depreciation and Amortization), incluindo a emissão de carbono (representante dos gases de efeito estufa) como item na avaliação do potencial das instituições.


O componente “C”, dotado de inteligência nova, passa a integrar os sistemas de gerenciamento de risco das empresas, monitorando a parcela de responsabilidade nas 45 gigatone- A partir de Copenhague, o EBITDA ganha um “C” passando a Ebictda (Earnings Before Interests, Taxes, Carbon regulation, Depreciation and Amorti zation). ladas de CO2 equivalente/ano de emissões globais, indicando oportunidades de atuação na economia de redução de carbono que, ao inverter a curva de crescimento de emissões até 2020 criará mercados globais de US$ 2,5 trilhões/ano em produtos e serviços de baixo carbono.


Pressões sem precedentes em Copenhague também levam a crise climática às portas das bolsas de valores onde massas de capitais ainda fluem livremente, sem regras para o fluxo de carbono. Ações negociadas em bolsas podem ser propulsoras ou mitigadoras de mudanças climáticas e indicadores como o “Carbon Index” e o “DCarb Index”, criados para medir o nível de carbonização e descarbonização dos ativos negociados, aumentando a transparência, são ferramentas simples para guiar investidores, estimulando tendências de capitais para as lucrativas rotas da descarbonização. Segundo o World Federation of Exchanges (WFE), que reúne bolsas de valores de todo o mundo, US$ 791 trilhões foram negociados globalmente em 2008, incluindo derivativos, contratos cujo valor deriva de outros ativos.

Após Copenhague, em 2010, o Brasil passará por outro ajuste adotando oficialmente o modelo contábil do International Financial Reporting Standards (IFRS), regras para balanços já vigentes em mais de 100 países, que modifica significativamente o modo com que as corporações reportarão seus demonstrativos financeiros, alterando a forma de apurar resultados e as análises do mercado sobre o desempenho das empresas.


Enquanto demonstrativos da contabilidade tradicional consideram meio ambiente e mudanças climáticas como contingências remotas – externalidades –, o IFRS determina que os ativos biológicos (tudo que nasce, cresce e morre), alterações climáticas e seus impactos positivos e negativos sobre o valor dos bens, sejam ajustados no balanço pelo fair value (valor de mercado), o que pode alterar significativamente os resultados e o nível de atratividade de mercado das empresas. As novas regras influem diretamente no Ebictda e precisam ser entendidas pela administração, afinal, além dos balanços, a reputação e a imagem das empresas também serão afetadas.


Os ativos biológicos, ou seja, culturas variadas, canaviais e produtos derivados, rebanhos e matrizes reprodutoras, florestas plantadas cercadas pelas naturais (mais bem chamadas de biofábricas por abrigar princípios ativos ainda não valorados), são bens vivos que crescem ou engordam, e alguns são commodities com preços oscilantes, terão que ser demonstrados nos balanços pelo valor de mercado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, que financia bioativos da pecuária, florestas e alcoolquímica derivada da cana, estará enquadrado nas regras do IFRS – e os financiados também.


A União Europeia adotou as normas IFRS em 2005. O Brasil, com o peso expressivo dos ativos biológicos, será um special case para o International Accounting Standards Board (IASB), mentor das regras contábeis internacionais. Toda inteligência contida nos parâmetros do IFRS ainda é insuficiente para avaliar e demonstrar o fair value da maior biopotência do planeta na economia global.


O relatório final da Comissão para Mensuração da Performance Econômica e Progresso Social, formada por iniciativa do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e coordenada pelos cientistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi, uma referência para o desenvolvimento sustentável, observa a “contribuição” que cada país pode dar, individualmente, para a “insustentabilidade global”. Diante da constatação da Comissão fica evidente a contribuição que o Brasil pode dar ao mundo com a valoração dos seus ativos ambientais, matriz energética limpa e adoção de inteligência nova nas instituições, credenciando-o a pleitear o recebimento de eco-royalties em fóruns competentes das Nações Unidas.


O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em rota de descarbonização, não usa mais papel e é o primeiro tribunal nacional do mundo a só julgar processos digitalizados, um exemplo da alta corte brasileira. Enquanto o governo brasileiro avança no debate internacional estabelecendo metas de redução de emissões, São Paulo promulga a lei da descarbonização e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas reúne empresas na Plataforma Brasileira Empresas pelo Clima (EPC); bancos como Itaú e Bradesco e transnacionais brasileiras como Natura, Braskem, Vale e Suzano, que já trabalham com a visão do fluxo “C” no Ebictda, rebaixam suas emissões controlando riscos e ganhando competitividade. Exemplos sintomáticos de transição para a nova geração de empresários reunidos em fóruns como o Comitê de Jovens Empreendedores (CJE), da Fiesp, próximos comandantes das empresas de baixo carbono.