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INSIGHT BLOG Deus salve a rainha Vitória Bonaiutti De Martino. Este é o imponente nome por trás de um dos maiores mitos populares brasileiros. Para atender aos chamados do talento precoce, e escapar do rígido controle da família evangélica, a garota paulista, descendente de imigrantes italianos, adotou nova identidade e pegou o trem para o Rio, onde despontaria irreversivelmente para a fama nacional. Salve, Marlene! A filha do engenheiro Vitório com Antonieta, forma- a em cor te e costura, nasceu em 22 de novembro de 922, sete dias antes do falecimento do pai. Caçula e três irmãs, a criança era da pá virada. 5-3-1931 - Há cinco dias fui internada no Colégio Batista Brasileiro. Minha mãe tomou essa esolução porque sou muito levada, brigo com odo mundo, dou beliscões nas colegas, pouco estudo, enfim, essa atitude foi um castigo que mamãe me deu. E, também, justiça seja feita, dona de grande autocrítica, como se pode depreender das ano- tações em seu diário. Aos 9 anos, a pequena foi matriculada no Colégio Batista Brasileiro de São Paulo, onde permaneceu até os 16. 20-11-1931 – Aproximam-se as férias. Este ano não estarei contente nesses 3 meses de descanso. Estou reprovada. Ingrato, para mim, o 1º ano ginasial. Uma reprovação dói na gente, mar tiriza, aborrece, estou mesmo sem graça. Com é desagradável a gente levar “bomba”! Que tristeza! Que vergonha! Faltam apenas 10 dias para terminar o ano letivo e o diretor incluiu meu nome na lista negra. Que vergonha... No colégio, as moças mais velhas tocavam violão e a menina-bomba tanto fez que a mãe deu-lhe um instrumento de segunda mão. Espe- rava as grandalhonas saírem do dormitório, pe- gava o livro que ensinava a tocar e mandava ver nos primeiros acordes musicais. E já se iniciava também no aprendizado de outras ar tes... Dezembro de 1931 – Minha colega Sílvia. Saudações. Bom dia. Fui ontem ao cinema com o meu garoto. Minha mãe não soube o que havíamos combinado antes. A sessão infantil do Recreio estava pouco freqüentada. Sentamo- nos nas últimas poltronas, desinteressamo-nos do filme, dos seus personagens, e passei um dos dias mais alegres de minha existência. Que felicidade, minha Sílvia. Diga a Jacira e a Zoé que fiz as pazes com ele. Mas que felicidade! Nos primeiros anos de internato, tantas eram as encrencas em que se envolvia, que Vitória marcava ponto no gabine- te do diretor de castigo. Mais adiante, porém, conscientizando-se dos esforços que D. Antonieta fazia – lecionando cor te e costura no Instituto de Surdos e Mudos como meio de sustentar a casa após a mor te do marido –, a futura estrela da canção segurou a onda. Passou a custear os estudos desempenhando tarefas na escola, como varrer os corredores ou pôr a mesa no refeitório. A reviravolta nos métodos disciplinares sur tiu efeito. 1-4-1932 – Não serei mais reprovada. Se Deus quiser farei o curso ginasial com boas notas, pres- arei atenção às aulas, estudarei decididamente até o término do currículo. Tenho fé em Deus... Estava salva a pátria. Com o adendo de que a fervorosa aplicação ultrapassava os rigores das salas de aula. Novembro de 1935 – A festa do “Bolo” deste ano, realizada pelas nossas colegas, foi das melhores. Houve um caso interessante. Fui, à noite, à cozinha. Fur tei, na geladeira, ovos, e na dispensa farinha de trigo, açúcar e outros ingredientes com outros que estavam quase prontos. Enfeitei com chocolate. Qual não foi minha surpresa quando, no dia seguinte, no mo- mento da apuração para verificar qual o melhor bolo, o meu foi levantado, tendo a professora perguntado quem o havia feito. Com receio de ser castigada, fiquei calada, e ela disse, então, que foi o bolo mais bem feito pelas alunas do Curso de Ar te Culinária. Apresentei-me, rece- bendo um prêmio que guardo até hoje (Um prato de porcelana). Veio a diplomação, acompanhada da glória maior: falar para uma plateia. E plateia entusias- mada – o melhor dos mundos. 11-12-1936 – Recebi hoje o cer tificado de conclusão do curso secundário. Pela primeira vez tive opor tunidade de declamar para um público seleto. A poesia “O Ratinho” é muito bonita, e todo mundo ria quando eu dizia: O Ratinho avistou de longe a ratoeira Eu te conheço, disse, parando Máquina traiçoeira Aquele mundo acadêmico começou a ficar pequeno demais. Fevereiro de 1937 – Minha mãe não quer que eu me empregue. Mas não há de ser nada. Vou trabalhar de qualquer maneira. Eu quero é trabalhar, eu quero é movimento. Já no mês seguinte... 2-3-1937 – Estou trabalhando num escritório de representações. Por 150 mil réis tenho que trabalhar das 8 às 18 horas. Gozo de liberdade. Escrevo crônicas durante o horário, que aliás estão sendo ordenadas em forma de livro. Um belo dia, os estudantes decidiram lançar um programa radiofônico. 1-11-1937 – Está fundada a Federação dos Estudantes Paulistas. Fui convidada para secre- tária; conseguimos na Rádio Bandeirantes uma hora gratuita. Chamam-me para cantar...Até em japonês cantei, e isso por gentileza do meu patrão que permitia nos dias de programa. Inicia-se assim minha carreira ar tística... Contra a vontade da família, diga-se de passagem. Para driblar a marcação cerrada, Vitória abandona o nome verdadeiro e assume a identidade que em breve a consagraria no Brasil inteiro. A origem da opção – Marlene –, sugerida pelos estudantes, teria sido influência da atriz homônima famosa, a Dietrich. Mas a própria rebatizada não confirma hoje a versão. Seu diário segue na função de fiel depositário de reticências e... mais felicidade. 18-6-1938 – Estou noiva do presidente da Federação de Estudantes. Não está dando cer to, mas...Comecei hoje a freqüentar a Rádio Tupi com a cantora Janete, a “garota do chapéu de palha”. O diretor simpatiza-se comigo, pergunta-me se quero ser ar tista, se quero cantar...Ora, perder essa opor tunidade? Era meu sonho ser ar tista profissional. Submeto-me a um teste, atuando das 21,15 às 21,30 horas. Fui feliz. Assinei contrato no mesmo dia, ganhando 200 mil réis por mês. Era pau p´ra toda obra. Locutora, rádio-atriz, e consegui um programa de 5 minutos, intitulado “Dorotéia no Cinema”. Era a partida de uma longa viagem. Da Bela Vista, reduto da colônia italiana na capital pau- lista, onde nascera, para the world. Verão de 1940 – Viajei por Baía, Pernambu- co, Paraná, quando recebi uma proposta de um cassino da Cidade Maravilhosa. Marlene havia escrito uma car ta para um empresário ar tístico do Rio de Janeiro (Armando Silva Araújo) que conhecera em São Paulo. “Ele mandou a passagem de trem para eu vir ao Rio. Quando cheguei aqui, já estava reservado um apar tamento no Hotel Itajubá, per to do Teatro Rival, no Centro. Mas ele não imaginava que eu fosse tão jovem, porque vestia roupas das minhas irmãs e usava sapato alto para aparentar mais, e ficou apavorado, pois achava isso muito peri- goso. Mesmo assim conseguiu uma audição no Cassino Icaraí. Lá, gostaram de mim e resolveram me contratar. Mesmo sendo menor de idade, acabaram dando um jeitinho brasileiro. Morei alguns meses em Niterói e me mudei para o Rio. Fui ficando, meu jeito de cantar ia agradando. E eu não tinha estudo nenhum para isso. Meu sonho era ser cantora porque tinha escutado no rádio em São Paulo uma cantora que também era garota – a Isaurinha Garcia – e me encantado: se ela, menina, cantava, eu também poderia,” conta Marlene. Março de 1941 – Sou ar tista de um cassino e de uma estação de rádio do Rio. Marlene passou a se apresentar também na Rádio Globo – ainda na base do cachê –, onde, posteriormente, teria contrato fixo. 1-5-1943 – Cheguei hoje de avião a Buenos Aires. Estou atuando numa elegante boite e na rádio Belgrano. Um sucesso! Como os argentinos são amáveis...Como sabem ser cativos...Como são hábeis... O produtor Carlos Machado – conhecido então como “O Rei da Noite” – ia levar sua orquestra do Cassino da Urca a Buenos Aires e queria uma cantora. Marlene foi a escolhida. Na volta, recebeu o convite para substituir Linda Batista no Cassino. Dois anos depois, ela desembarcaria em Montevidéu para animar o carnaval uruguaio. Carnaval de 1945 – Grandes festejos no car- naval do Uruguai. Tenho me diver tido bastante, de máscara, mas, como sempre, sem um pingo de bebida alcoólica. Momo aqui é muito querido. Marlene continuaria cantando no Cassino da Urca até a proibição do jogo no país por decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra. 5-5-1946 – Acho-me desesperada. Fechados os cassinos, perdi um emprego que me rendia 11 mil cruzeiros mensalmente. Mas, que fazer? O amanhã é outro dia... E que dia! O sol nunca mais deixaria de brilhar na presença da estrela que nascia. Depois de uma passagem pela boate Casablanca, Marlene assinou contrato com o Copacabana Palace e, de quebra, a Rádio Globo, após uma passagem pela Rádio Mayrink Veiga. Apesar de já ter estreado em disco pela Odeon em meados de 1946, com as gravações dos sambas “Suingue no morro “(Amado Régis-Felisber to Mar tins) e “Ginga, ginga, moreno” (João de Deus-Hélio Nascimen- to), foi no carnaval do ano seguinte que Marlene conheceu o primeiro sucesso, com “Coitadinho do papai “(Henrique de Almeida-M. Garcez). Mais de meio século depois, ela cantarola a marchinha de carnaval no sofá de seu apar tamento em Copacabana: Mamãe quer saber Onde é que o velho vai Pode até chover Que toda noite o velho sai Papai diz que vai lá pra companhia Diz que tem reunião de diretoria Mamãe desconfia Mas não sabe onde ela via Se um dia ela descobre Coitadinho do papai Essa música marcou também sua estréia na poderosa Rádio Nacional. Vitor Costa, diretor da emissora, teve a ideia de chamar a crooner - que estava começando e já estourando - do Copacabana Palace para o Programa Cesar de Alencar. “Foi difícil entrar para a Nacional, porque a direção do Copa, a casa mais chique da cidade, não queria que eu fosse uma cantora de rádio. Mas fui e levei um susto, porque quando cheguei lá e me apresentaram, todo mundo começou a cantar a marchinha. Pensei: como é que pode? Gravei agora, ninguém sabe quem eu sou...” A emissora a projetou de Nor te a Sul do país com a eleição para Rainha do Rádio. Seria o primeiro ano a se lançar o concurso com a venda de votos e a receita arrecadada iria para a construção do Hospital do Radialista. Nas edições anteriores, a Rainha era escolhida por carnavalescos durante a realização de um baile. Os radialistas nunca viram a cor de sua unidade médica (e quem terá visto a do dinheiro?), que acabou virando o atual Hospital da Lagoa. Mar- lene, entretanto, contrariando todas as expec- tativas, sagrou-se campeã, deixando Ademilde Fonseca em segundo lugar e a favorita absoluta – Emilinha Borba – em uma surpreendente terceira colocação. É que ali tinha truta. Todas as cantoras concorrentes precisavam vender seu voto para fazer o caixa beneficente. Marlene já havia sido prevenida que não ia ganhar. Afinal de contas, como bater ninguém menos que a peso-pesado Emilinha, cujo prestígio andava nas alturas? Os organizadores só a convocaram pelo fato de ela trabalhar numa casa – o Copa – frequentada pela nata da sociedade brasileira e internacional, que, com dinheiro a rodo, seria uma fonte inestimável para a captação de recursos. “A intenção deles foi essa, porque as outras intérpretes não atu- avam num espaço tão nobre. Diziam que eu ia ajudar, mas não podia vencer, porque o grande público não me conhecia ainda e enfrentaria o maior nome nacional. Eu nem liguei para isso. Meu negócio era estar no palco. Mas, como me pediram, topei e comecei a sair com o talãozinho para a venda de votos. Pedia até para a rádio patrulha comprar. Em um dos intervalos dos shows no Copa, me aproximei de um empresário (Raul Guastini), amedrontada: `o senhor poderia me dar um votinho pro Hospital do Radialista? Ele respondeu: ‘não vou dar votinho, nem um, nem dois, nem três, porque não vai adiantar nada, mas vou a São Paulo e na volta conversamos’” A jogada era que a Cia. Antarctica Paulista estava pretendendo lançar um novo produto - o Guaraná Caçula. E não queriam uma ar tista co- nhecida para a campanha publicitária. Então, num lance marqueteiro pouco or todoxo, deram um cheque em branco para cobrir o voto de todas os concorrentes. Em todas as eliminatórias, Marlene nunca esteve na frente. No dia da finalíssima, com a apuração em plena Rua do Acre, onde ficava a Associação Brasileira de Rádio, porque a ven- cedora sairia dali direto para o Programa Cesar de Alencar, em que Emilinha reinava, estourou a bomba. “De repente – ela imita a dramática vinheta de introdução dessas ocasiões - entrou no ar uma edição extraordinária do Repór ter Esso. Parou tudo e o locutor Heron Domingues anun- ciou que uma cantora principiante havia vencido o concurso. Foi um choque para mim e para todo mundo. No dia seguinte, eram espalhados car ta- zes no Brasil inteiro com a minha foto saindo de uma garrafa de guaraná caçula, com o slogan A Rainha do Rádio e o Rei dos Refrigerantes. Aí, foi realmente uma explosão e começou a rivalidade com a Emilinha - que tinha ficado em terceiro lugar, abaixo de Ademilde Fonseca, da Rádio Tupi, na época uma potência do Assis Chateaubriand que fazia força para ela ganhar -, que não deve ter entendido nada. Ela nunca me perdoou por isso, uma coisa de que não tive culpa nenhuma. Me pediram uma colaboração, eu fiz e dei sor te. No finalzinho da vida dela é que nos aproximamos mais. Ela confessou ser minha admiradora, disse que eu era uma criatura boníssima e pediu que perdoasse tudo o que ela tinha feito de ruim para mim. E foi embora para o céu”, emociona-se. amar O fato é que a carreira de ambas tomou ru- mos incendiários a par tir daí. “O negócio pegou um fogo tão grande, foi tão sério, que o Brasil dividiu-se em facções emilistas e marlenistas. `Por que estão atacando tanto essa menina – eu já fui menina, viu? – se ela não tem culpa, se o voto era comprado? Não se pode imaginar o que eu sofri e ela deve ter sofrido também. É uma coisa que não vai existir nunca mais. Não foi a mídia, mas o povo que fez”. Às vezes, quando estavam as duas em uma rádio, multidões concentravam-se nas por tas da emissora aguardando a chegada e a saída das intérpretes. E o bicho pegava, as pessoas ficavam exaltadas, havia quebradeira. Como eram contratadas da mesma gravadora, chegaram a gravar discos juntas para ver se os ânimos serenavam. Debalde. Eram os fãs-clubes em fúria, que reuniam as chamadas “macacas de auditório”, armando as maiores confusões para defender com unhas, dentes e gritos as suas protegidas. Com o passar dos anos, porém, as “macacas” foram cedendo lugar à gente mais interessada em preservar a impor tância de Marlene pelo viés cultural. Um dos fã-clubes mais impor tantes da cantora hoje – a Associação Marlenista do Rio de Janeiro (Amar) – nasceu de um racha numa antiga agremiação em 1986. Sua presidente, a baiana Nieta (Antonieta) Maria, relembra: “Desde menina, em Salvador, eu a ouvia nos programas da Rádio Nacional. Mais tarde, no Rio, indo a shows, conferi que era realmente uma apresentação muito diferente. Descobri a grande intérprete. E tinha a curiosidade de entender que fenômeno era aquele. Um dia, em um espetáculo do Projeto Seis e Meia, no Teatro João Caetano, fiquei um pouco distante da multidão e, no final, um rapaz aproximou-se, perguntando o que eu havia achado. Ficamos conversando, teci minhas considerações e ele me convidou para uma reunião do fã-clube. Era tudo que eu precisava. Quase Natal, par ticipei do amigo oculto deles e Marlene estava lá. Ela foi muito gentil. O meu nome é o mesmo da mãe dela. Acredito que, além da minha maneira de ser, isto tenha sido uma credencial for te. Após algum tempo, fui uma das pessoas que opinaram pela transformação do fã-clube em uma entidade que pudesse também assessorar e produzir, enfim, ter um caráter mais profissional. Estou na Associação Marlenista há 23 anos e há 17 exerço a função de presidente”. Quem toma conta dessa área na Amar é o pes- quisador César Sepúlveda. “Sempre acompanhei Marlene desde garoto e minha aproximação maior se deve à dissidência ocorrida numa determinada época no fã-clube. Havia um lado mais preocupa- do com festas, reuniões, diver timento. E chegou uma turma nova com outra visão, de preservar a imagem, a carreira, o lado mais cultural, de pes- quisa. Foi aí que entrei na diretoria da associação junto com a Nieta. Marlene resolveu doar todo o seu acervo ao Instituto Cravo Albin, cujo patrono, seu velho amigo, criou e dirigiu sete impor tantes espetáculos para a estrela. O ICCA vai destinar um espaço especial em sua sede para inaugurar o Acervo Marlene. É a primeira ar tista viva a fazer isso para a instituição. Estamos fazendo o levantamento de todo o arquivo existente”. Por falar em memória, César destaca que a mais recente apresentação de Marlene foi para a gravação de um DVD-documentário na Rádio Nacional a ser lançado este mês. “É a vida de Marlene mapeando a história da emissora. Ela e Cauby Peixoto são os únicos ar tistas da geração deles a terem DVD contando a sua trajetória. Quantos outros ar tistas já foram embora e não conseguiram isso. É um absurdo”. a maior Voltando aos áureos tempos da Nacional, a eleição para Rainha do Rádio rendeu a Marlene um programa exclusivo, chamado “Duas majes- tades”, e um novo horário no Programa Manoel Barcelos. “Marlene, Meu Bem”, em 1955, foi o primeiro programa de rádio-teatro ao vivo, com cenários e vários microfones espalhados pelo palco, estrelado por Marlene e Luiz Delfino, seu marido na época. Além de Rainha do Rádio, ela colecionou outros tantos títulos de nobreza: foi Rainha dos Auditórios, Rainha da Imprensa, Rainha dos Subúrbios, Rainha dos Gays, além de uma penca de slogans como A maior (dado por uma fã) e A ar tista mais ar tista das ar tistas do Brasil (de autoria do radialista José Messias). O também radialista Manoel Barcelos sapecou-lhe dois – A incomparável e A que não perde a ma- jestade. Em 1956, o então ministro e brigadeiro Eduardo Gomes outorgou-lhe o título de Favorita da Aeronáutica, em contraponto à arquirrival Emilinha Borba, a Favorita da Marinha. Cantar no Copacabana Palace abriu-lhe as por tas da mais antiga e famosa casa de espetá- culos da França. Foi vendo Marlene no palco do Copa que a cantora Edith Piaf convidou-a para par ticipar da aber tura de suas apresentações no Teatro Olympia, em 1958. Era a primeira ar tista a levar o samba aos franceses. Na temporada de quatro meses e meio incorporou mais um título: “La Sauvage”. Mais tarde, a cantora de gestos largos e intenso domínio de palco, que já havia par ticipado de vários filmes e peças musicais, marcaria sua presença também no teatro, em antológica atuação, entre outras, na peça “Botequim” (Gianfrancesco Guarnieri). O reconhecimento de sua persona dramática levou o jornalista Simon Khoury, responsável por uma série de livros reunindo entrevistas com os gran- des atores e atrizes brasileiros, a incluir Marlene em seu próximo lançamento, o 18º desde 1983. O criterioso Simon entroniza, assim, o nome da intérprete de inúmeros sucessos - como a célebre “Lata D’Água” (Luís Antônio-Jota Júnior), “Qui Nem Jiló” (Luiz Gonzaga-Humber to Teixeira) e “Mora na Filosofia” (Monsueto-Arnaldo Passos) – no Olimpo da ribalta nacional. Aos 86 anos, recuperando-se de uma fratura no fêmur no ano passado, Marlene avisa: “Continuo querendo palco. A minha vida inteira até hoje é estar no palco”. Bravo, rainha Vitória! |
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