Fontes alternativas de energia: o que o Brasil tem feito?

Por Heloisa Firmo Kazay, D.Sc., e Luiz Fernando Loureiro Legey, PhD
Programa de Planejamento Energético da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ)
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A maioria dos profissionais que trabalham na área reconhece que os próximos anos deverão se caracterizar por um uso diversificado das fontes de energia. A meta de redução dos gases causadores do efeito estufa, bem como a diminuição dos estoques dos combustíveis fósseis, contribui para que as fontes alternativas, especialmente aquelas renováveis e as não-poluentes, ganhem um impulso inédito. Por outro lado, o conceito de geração distribuída, que vem sendo cada vez mais difundido na engenharia dos sistemas energéticos, aponta para uma participação crescente das fontes alternativas na geração de eletricidade.

No campo legislativo, está para ser votado, no Congresso brasileiro, o projeto da Lei da Energia, que obriga a introdução de fontes alternativas renováveis na matriz energética e a universalização do serviço público de energia elétrica. A exemplo do que ocorreu na Califórnia e na Europa, produtores independentes de energias solar, eólica e de biomassa acreditam que, caso aprovada, a nova lei será o comando legal que faltava para o estabelecimento, por parte do governo, de políticas públicas de incentivo às fontes alternativas e de regulamentação específica pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Entre as diversas fontes alternativas de energia, as mais relevantes no Brasil são, por ordem de potencial estimado: a eólica (57 GW); a solar fotovoltaica (14,3 GW); a obtida a partir da biomassa (20 GW); e as pequenas centrais hidrelétricas ou PCHs (9,5 GW).

A seguir, é apresentada uma descrição sumária da tecnologia de aproveitamento dessas fontes e discutido o estágio em que o Brasil se encontra em cada uma delas.

Energia Eólica
A energia eólica provém de diferentes níveis de radiação solar e, por conseguinte, do aquecimento distinto em diversas regiões do planeta, o que provoca o deslocamento de camadas de ar, que são os ventos. A energia cinética contida nessas massas de ar é a energia eólica, que pode ser captada por uma turbina e logo convertida em energia mecânica rotacional e, posteriormente, em eletricidade, nos terminais de um gerador elétrico.

Como uma das principais fontes alternativas de energia, a energia eólica tem-se destacado pelo reduzido impacto sobre o meio ambiente e sobre comunidades vizinhas, pela sua base tecnológica industrial, pela experiência e pela confiabilidade adquiridas nos últimos 20 anos de operação de grandes sistemas no mundo e, também, pelo seu imenso potencial.

O desenvolvimento apresentado nas últimas décadas pela tecnologia de conversão de energia eólica é significativo. Os sistemas eólicos estabeleceram-se nos EUA e na Europa por intermédio de uma indústria sólida e evoluíram no projeto, na construção e na operação, o que resultou numa substancial redução dos custos.

No Brasil, a principal região favorável à utilização da energia eólica é o Nordeste. Para impulsionar o desenvolvimento da energia eólica no Brasil, é necessária a definição de políticas públicas, de leis que a incentivem e de linhas de financiamento.

No campo da política, foi criado, pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, o Programa Proeólica, que garante a compra, a bons preços, de até 1.050 MW (possivelmente, esse limite será expandido para 3 mil MW).

Entusiastas desta fonte energética, como membros do Centro Brasileiro de Energia Eólica (CBEE), sustentam que, em dois anos, se pode chegar a um potencial, no litoral nordestino, de 20% da capacidade instalada no Rio São Francisco, que é de 10.400 MW.

Atualmente, o Ceará é o estado que mais investe em energia eólica. Lá já existem dois parques eólicos, que somam um total de 15 MW. Em três anos, o governo do estado pretende acrescentar mais de 1.200 MW, o que representa 35% do consumo atual de energia do Ceará.

Para definir precisamente o potencial desse tipo de energia, o Cepel (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica) está concluindo o Mapa Eólico do Brasil, que servirá de referência para o aproveitamento da energia dos ventos.

Energia Solar
A energia solar pode ser captada na forma de calor, por coletores que a armazenam pelo aquecimento de fluidos (líquidos ou gasosos). Contudo, é a energia solar fotovoltaica, fruto da conversão direta em eletricidade, a forma que tem apresentado o desenvolvimento mais notável nos últimos anos. Ela é produzida por uma diferença de potencial elétrico nas faces opostas de uma junção semicondutora, quando da absorção da luz.

Os sistemas fotovoltaicos têm recebido grande atenção da comunidade técnica internacional. Como conseqüência, têm sido apontados como umas das grandes oportunidades no setor energético neste princípio de milênio. A produção mundial de painéis fotovoltaicos vem crescendo expressivamente. Ultrapassou 120 MW, no ano de 1997 e continua a aumentar. Essa tendência é fruto de um grande esforço tecnológico e político, no sentido de reduzir custos e melhorar a eficiência e a confiabilidade dos painéis. Sistemas de geração fotovoltaica têm sido utilizados de duas formas: isoladamente e em co-geração. Em localidades remotas, que não contam com fornecimento de energia elétrica convencional ou em regiões de difícil acesso à rede elétrica, sistemas fotovoltaicos isolados podem ser a solução. Neste caso, a energia gerada deve ser parcialmente armazenada em bancos de baterias. O excesso de energia gerado durante períodos de elevada radiação solar, ou de baixo consumo, pode ser armazenado, para uso durante a noite, por exemplo. Sistemas fotovoltaicos podem ser a fonte principal de energia para consumo residencial e outras atividades, como o bombeamento de água para irrigação. A outra situação possível envolve a utilização de um sistema de geração fotovoltaico como uma fonte de eletricidade conectada em paralelo com a rede elétrica, em co-geração. Neste sistema, o consumidor utiliza primariamente a energia gerada localmente em painéis fotovoltaicos. Qualquer diferença entre o consumo e a geração local é fornecida ou consumida pela rede de energia, dispensando o uso de baterias. Do ponto de vista do consumidor, a vantagem é a redução direta do custo da conta de eletricidade. Do ponto de vista do sistema de energia, as vantagens são a liberação de capacidade de geração e transmissão de energia, o nivelamento da curva de carga, a redução de custos e a descentralização da geração. Os sistemas fotovoltaicos vêm recebendo grande atenção em vários países. Projetos como Niewland (complexo residencial de 5 mil casas, com 1 MW de capacidade de geração fotovoltaica), na Holanda, assim como outros igualmente expressivos, nos EUA, Japão, Israel e Alemanha, são indicativos da determinação desses países em promover a utilização da energia fotovoltaica em centros urbanos. Nesses países, a energia elétrica é essencialmente gerada por usinas termelétricas a carvão, o que aumenta o interesse na energia solar, sob o ponto de vista ambiental.

Painéis fotovoltaicos são disponíveis hoje em várias apresentações, além da clássica forma plana: como telhas, laminados flexíveis, placas semitransparentes etc. Isto possibilita a integração dos painéis fotovoltaicos às edificações, com um mínimo de impacto arquitetônico. A co-geração em edifícios comerciais permite a redução de custos e é particularmente vantajosa quando se lembra que as atividades nesses prédios se concentram durante o dia, no período de disponibilidade da energia solar.

No caso do Brasil, a extensão territorial e os níveis elevados de radiação solar, durante todo o ano e em praticamente todo o seu território, estão entre os principais fatores que justificam uma política de apoio à co-geração fotovoltaica. Isso, no entanto, não acontece. Porém, a energia eólica vai sendo aos poucos aproveitada em escalas equiparáveis a aproveitamentos hídricos.

Antonio Granadeiro, presidente da Associação Brasileira de Energia Renovável (Abeer), prevê que o potencial instalado de painéis fotovoltaicos — cerca de 10 MW — vai dobrar. Para que isso ocorra, serão necessários investimentos da ordem de R$ 30 milhões. Entretanto, no que depender do governo, o mercado nacional para energia fotovoltaica deve continuar insignificante, mesmo com as oportunidades criadas pela crise energética. A razão, já apontada anteriormente, é a carência de programas de incentivo, como o Proeólica. Esses incentivos são fundamentais para estimular o aproveitamento da energia solar fotovoltaica que só é viável em torno de R$ 250/MWh, um valor muito alto, quando comparado ao Valor Normativo da energia hidráulica do sistema interligado, que é de R$ 70/MWh.

A principal aplicação seria o suprimento de comunidades isoladas, onde se encontra a maior parte dos 17 milhões de brasileiros “sem-luz”, identificados em levantamento recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A principal preocupação do governo se concentra em aproveitamentos de grande porte, incorporáveis ao sistema interligado. Apenas iniciativas isoladas conseguiram algum avanço na utilização da energia solar. Um exemplo dessa iniciativa é a parceria entre o governo do estado do Ceará e a organização não-governamental Ider (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis), que inclui a instalação de 74 sistemas, em duas comunidades do município de Viçosa do Ceará, a 250 quilômetros de Fortaleza. Por intermédio de doações de entidades internacionais, como organizações americanas e escolas da Alemanha e de Portugal, o Ider está conseguindo levar eletricidade fotovoltaica a regiões como Itapipoca, a 200 quilômetros de Fortaleza, onde foram instalados 100 painéis de 8 kW, que atendem a 11 comunidades de agricultores e pescadores.

No Estado do Rio, a Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo, em parceria com o Prodeem (Programa de Desenvolvimento Energético de Estados e Municípios), planeja instalar 100 sistemas fotovoltaicos, totalizando cerca de 138 kW, o que corresponde a um consumo mensal de 8.880 kWh. Os investimentos são da ordem de R$ 1 milhão e já foram gastos mais de R$ 400 mil. O projeto faz parte do programa Gera-Sol, que deverá ter cerca de 60 sistemas implantados até o fim deste ano, em regiões como Campos, São Fidélis, Angra dos Reis e Parati. O governo federal entra com recursos do Prodeem para a compra dos painéis e o estadual, com mão-de-obra, testes e ligação dos aparelhos.

Uma possibilidade de impulso na produção de energia solar fotovoltaica pode ser deflagrada pelo setor de telecomunicações. Um exemplo é a Telemar, que explora a telefonia fixa no Sudeste (exceto São Paulo), no Nordeste e no Norte. A empresa antecipou em um ano as metas de universalização do atendimento, inicialmente setembro de 2002, a fim de concorrer com as empresas-espelho, que atuam nas mesmas regiões. O contrato de concessão exige que a Telemar instale pelo menos um telefone público em cada localidade com um mínimo de 500 habitantes. A opção é instalar telefones celulares fixos, alimentados por painéis fotovoltaicos, uma vez que nem a rede de telefonia nem a elétrica chegam à maior parte dessas localidades.

Em contraste com o cenário da energia fotovoltaica, o segmento de coletores solares para aquecimento de água teve um grande impulso em 2001. Os principais fabricantes de São Paulo estão ampliando as instalações para atender à demanda crescente. A Abrava (associação de 25 fabricantes de equipamentos, responsáveis por 80% do movimento do setor) avalia que o número de coletores solares no Brasil vai crescer 50% em 2001, chegando a 3 milhões de metros quadrados, superando o aumento de 34% observado na virada de 1999 para 2000.

A Petrobras aposta fortemente nas energias renováveis e destinou 0,5% de seus investimentos para pesquisa e desenvolvimento dessas fontes, o que representa US$ 29 milhões apenas em 2001. Alguns projetos de energia eólica e solar já estão sendo postos em prática, como o primeiro posto de gasolina da América Latina com bombas acionadas por sistemas fotovoltaicos, de 4 kW, no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro. Também este ano deverá entrar em operação o parque eólico do Rio Grande do Norte, de 3 MW. A companhia já prepara o lançamento de um edital de licitação, ainda em 2001, para a instalação de sistemas fotovoltaicos em 20 postos por todo o Brasil. Os escolhidos deverão ser aqueles que ficam distantes dos centros de carga de energia e que estão sujeitos a falhas na rede.

Biomassa
Por intermédio da fotossíntese, as plantas capturam a energia do sol e a transformam em energia química. Essa energia pode ser convertida em eletricidade, combustível e calor por vários processos. As fontes orgânicas usadas para produzir energias com esses processos são chamadas de biomassa. Embora emita gás carbônico quando é queimada, a biomassa absorve esse gás pela fotossíntese quando está crescendo no campo.

Os combustíveis mais comuns da biomassa são resíduos agrícolas, madeira e plantas como cana-de-açúcar, colhidas com o propósito de gerar energia. No entanto, é possível converter o lixo municipal em combustíveis para o transporte, as indústrias e mesmo para residências. Já existem milhares de casas e indústrias que utilizam biomassa como energia. De acordo com o Banco Mundial, de 50% a 60% da energia nos países em desenvolvimento provêm da biomassa, e metade da população mundial cozinha com madeira.

O clima tropical, a grande extensão territorial e a vantagem de uma árvore crescer, aqui, cinco vezes mais rápido do que em países com clima temperado ou frio, fazem do Brasil um local apropriado para se usar a biomassa na produção de energia elétrica. No entanto, assim como no caso das energias eólica e solar, faltam financiamento e políticas adequadas.

O Brasil ainda apresenta a vantagem de desenvolver, há mais de 20 anos, o Proálcool (Programa do Álcool), com uma produção anual de 90 milhões de toneladas de bagaço de cana (safra de 2000). Caso utilizado de forma eficiente, isto forneceria um excedente de 4 mil MW ao sistema energético brasileiro.

No setor de papel e celulose (cascas de árvore, cavacos e licor negro), o excedente seria de 1.000 MW. Como não existe a obrigatoriedade de compra do excedente produzido pelo co-gerador, as concessionárias não se interessam. Ou, quando compram, oferecem preços pouco competitivos, e por isso o investimento não é compensador para o co-gerador.

A usina nuclear Angra 3, por exemplo, produziria 3 mil MW a um custo variável de R$ 70 a R$ 75 por MWh. No setor sucroalcooleiro, o custo seria de R$ 80, viabilizando a mesma quantidade de energia de uma fonte ambientalmente correta, trazendo inúmeras vantagens estratégicas para o país.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) acabou de lançar um programa para a implementação de co-geração no setor de biomassa, no qual o empreendedor poderá usar como garantia o contrato de longo prazo com a concessionária.

Existe ainda o biodiesel, fabricado a partir de óleos derivados de plantas oleaginosas, como palma, buriti e soja, e que também poderia ser usado nos geradores de energia de comunidades isoladas. Outra opção seria adicionar biodiesel, na proporção de até 3%, ao diesel utilizado no setor de transportes brasileiro. Esta medida melhoraria a condição ambiental nas cidades, diminuindo significativamente a emissão de poluentes.

A utilização de óleos vegetais para substituir combustíveis fósseis data da utilização satisfatória do motor diesel, em 1900. Entretanto, os problemas ocasionados pelo uso de óleos in natura fomentaram o desenvolvimento e a obtenção do biodiesel, que não exige mudanças nos motores.

Os estudos desenvolvidos pelo Pro-Óleo entre 1973 e 1986, no Brasil, analisaram, sob o ponto de vista técnico, o biodiesel derivado de praticamente todos os óleos vegetais disponíveis. Sua aplicação foi evitada pelo Contra-Choque do Petróleo, que reduziu os preços dos derivados do óleo cru.

As pesquisas internacionais mais recentes, feitas na década de 1990, fomentaram um sistema de plantio e produção de biodiesel na Europa. Há quatro anos, a Alemanha tem 100 mil veículos circulando com biodiesel puro. Os resultados são tão positivos que as montadoras mantêm a garantia para os veículos novos que utilizarem este combustível.

A retomada do assunto no Brasil deve-se à necessidade de reduzir as importações de óleo diesel, das vantagens do combustível limpo para a saúde das pessoas, além da possibilidade de comercialização dos certificados de redução de emissões de gases estufa e do incomensurável benefício social da oferta de postos de trabalho para a produção de biodiesel.

A Resolução 180/98 da ANP (Agência Nacional de Petróleo), que regulamenta o uso de combustíveis não-especificados, requer a realização de testes e a emissão de relatório para que seja concedida a autorização para comercialização do produto no varejo. Esses testes medem as emissões de poluentes, além das mesmas características analisadas pelos testes realizados no âmbito do Pro-Óleo.

A Coppe/UFRJ está realizando, desde abril de 2000, testes com óleos usados e gordura animal, resíduos das grandes cidades, além dos óleos virgens, sobretudo de soja, mamona, dendê, buriti e castanhas diversas. Obtiveram-se bons resultados, o que resultou na aprovação de um projeto pela Petrobras para instalação de um laboratório de combustíveis.

O aproveitamento energético de resíduos sólidos urbanos vem sendo feito há décadas na maioria dos países do Hemisfério Norte. Esse aproveitamento pode ser realizado pela conservação de energia, obtida por intermédio da reciclagem de papéis, plásticos, vidros e metais, assim como pela geração, mediante o uso dos restos alimentares para produção de combustíveis que serão consumidos por usinas termelétricas.

O Brasil produz 20 milhões de toneladas desses resíduos por ano, dos quais 65% são restos alimentares e os demais 35% de recicláveis (papéis, plásticos, vidros e metais). O custo para a execução da coleta seletiva desses materiais é de US$ 150/tonelada para os recicláveis e de US$ 20/tonelada para os demais. É possível reduzir estes custos, pois a média internacional da coleta seletiva é de US$ 50/tonelada.

A conservação por meio da reciclagem pode ofertar cerca de 30 TWh ao país, quase 10% do consumo atual, ao custo de US$ 35/MWh, abaixo dos valores médios do Procel (Programa de Conservação de Energia Elétrica) para o ano 2000, na faixa de US$ 40/MWh.

A geração, que pode agregar mais 7% à oferta, deve consorciar algumas das rotas tecnológicas disponíveis, mas todas elas são a inserção de um estágio nas usinas termelétricas tradicionais, qual seja, o beneficiamento dos resíduos para obtenção do combustível.

Os atuais vazadouros de lixo dispõem de biogás, decorrente da decomposição da matéria orgânica em ambiente anaeróbico, que deve ser recuperado. Entretanto, esse modelo não deve ser fomentado, pois a utilização de áreas para dispor lixo é cada vez mais combatida pela sociedade, seja pelo fato de impossibilitar o uso para outro fim, seja pelo aumento de custo de transporte, visto que os espaços disponíveis estão cada vez mais distantes das cidades. Para os resíduos que serão gerados, existem várias tecnologias para produzir combustível, além de subprodutos, e para reduzir a quantidade de material a ser disposto. Uma delas é a digestão acelerada, que produz biogás e adubo, podendo ter aproveitamento energético similar ao caso acima. Outra linha de beneficiamento envolve a pirólise e a gaseificação, que utilizam energia térmica e reagentes para separar os gases presentes na matéria. Existem mais de 300 plantas funcionando no mundo — infelizmente, nenhuma no Brasil. Essas tecnologias possibilitam a utilização de um combustível cotado em moeda nacional, muitas vezes com custo negativo (como a disposição em vazadouros será evitada, o custo dessa operação pode ser repassado às usinas que consumirem os resíduos), disponível exatamente junto aos centros de carga e passível de compensar emissões de gases do efeito estufa das usinas movidas a gás natural (na proporção de 1:10), o que pode fomentar as Usinas Termelétricas Híbridas (UTHs). Seus pontos negativos são o maior investimento (por terem um estágio a mais que as demais UTEs) e a atratividade pouco menor, de 19%, em comparação com os 21% das UTEs. Entretanto, a maior atratividade das UTEs decorre do aumento dos valores normativos para a geração feita com gás natural.

No Estado do Rio de Janeiro existe, desde o primeiro semestre, resolução da Secretaria de Energia, Indústria Naval e Petróleo que reduz o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para as usinas termelétricas que investirem a partir de 1% em fontes renováveis, o que pode melhorar a atratividade do empreendimento e ser estendido para todo o país.

Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs)
As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) caracterizam-se por serem usinas com potência instalada superior a 1 MW e igual ou inferior a 30 MW, e com reservatório com área igual ou inferior a três quilômetros quadrados. Esse tipo de empreendimento possibilita um melhor atendimento às necessidades de pequenos centros urbanos e regiões rurais. A partir de 1998, a construção dessas unidades foi incrementada por meio de uma série de mecanismos legais e regulatórios.

As resoluções da Aneel permitem que a energia gerada nas PCHs seja introduzida ao sistema de eletrificação, sem que o empreendedor pague as taxas pelo uso da rede de transmissão e distribuição. O benefício vale para quem entrar em operação até 2003. As PCHs estão dispensadas ainda de remunerar municípios e estados pelo uso dos recursos hídricos alheios.

Caso sejam construídas no sistema isolado da Região Norte, podem também receber financiamento do fundo formado com recursos da Conta Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC), se vierem a substituir as geradoras térmicas a óleo diesel.

O BNDES lançou o Programa de Desenvolvimento e Comercialização de Energia Elétrica de Pequenas Centrais Hidrelétricas, para viabilizar a sua implantação ou revitalização, conectadas ao Sistema Interligado Brasileiro. A Eletrobrás (Centrais Elétricas Brasileiras S.A, estatal) garante a compra de energia da usina e o BNDES oferece financiamento para o empreendimento.

Conclusões
Vento e sol abundantes num país de extensão continental, diversos sítios com quedas d´água aproveitáveis e um enorme potencial de manejo e aproveitamento da biomassa fazem do Brasil um país naturalmente propício para um crescimento significativo das energias alternativas em sua matriz energética. Aliado a essa tendência natural, aparecem o crescente aumento da eficiência e a redução dos custos desses sistemas alternativos, resultantes de um avanço tecnológico pressionado pela necessidade de produção de uma energia ambientalmente mais limpa.

Embora algumas fontes tenham um desenvolvimento maior do que outras, é importante uma visão de planejamento integrado. Uma iniciativa relevante nesse sentido foi tomada pela Petrobras, que, em parceria com a Coppe/UFRJ, está começando um projeto para uma ampla consolidação da base de dados das quatro fontes energéticas renováveis analisadas neste artigo. Essa base de dados visa a, entre outros objetivos, reduzir eventuais inconsistências entre as diversas estimativas dos potenciais energéticos dessas fontes. A partir da referida consolidação, será elaborado um plano de aproveitamento integrado, de forma complementar ao planejamento energético da expansão do setor elétrico brasileiro.

É indiscutível a importância das políticas, da legislação e de financiamentos para a viabilização dessas fontes. A crise energética trouxe à tona a vulnerabilidade de nosso sistema de geração concentrada. As fontes alternativas apresentam-se como soluções de geração distribuída, por atenderem de forma satisfatória a comunidades às quais a rede elétrica não chega. O número de comunidades sem energia elétrica no Brasil é impressionante e a questão deve ser tratada com a importância devida, num país que aspira crescer e precisa se desenvolver. •
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