O que ganhamos com a crise energética

Por Pedro Parente
Ministro-chefe da Casa Civil e coordenador da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica
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Visto em perspectiva, o programa de ra- cionamento de energia elétrica encer- rado no dia 28 de fevereiro, embora tenha causado algum dano sobre o quantitativo do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, trouxe ganhos estruturais inesperados à cadeia produtiva do país.

Estima-se que a economia poderá retomar, já em 2002, o mesmo ímpeto produtivo de 2000 (quando o PIB expandiu-se em 4,4%), com 7% a menos no consumo de energia elétrica. Trata-se de um fato extraordinário, considerando que historicamente a curva ascendente do consumo de energia situa-se sempre alguns pontos percentuais acima das taxas de crescimento econômico.

A sociedade brasileira demonstrou, mais uma vez, vigor, criatividade e flexibilidade. Só assim podemos explicar o fato de que o consumo total de energia, em 2001, tenha caído aos níveis de 1997, devido à redução de junho a dezembro. Olhando apenas para esses meses, o consumo reduziu-se aos níveis de 1994/95 — e o PIB ainda assim cresceu em 2001, acumulando 11,2% desde 1997.

Ao que tudo indica, não estamos diante de um fato meramente circunstancial. Ocorreu, a rigor, um choque de racionalização no consumo de energia por parte de toda a sociedade brasileira. Esta compreendeu a extensão do problema e colaborou de forma excepcional com o programa de racionamento, assimilando de forma promissora uma nova atitude que se tornou avessa ao desperdício.

A restrição ao consumo não se deu por um ato unilateral do governo, embora tenham sido estabelecidas sanções contra os excessos de consumo. O que houve, de fato, foi uma convocação a cada uma dos milhões de unidades consumidoras para que administrasse sua própria redução de consumo dentro das metas estabelecidas pelo governo federal. Para surpresa de muitos, o programa foi plenamente bem-sucedido.

O exercício de disciplina que a prática do racionamento exigiu de cada família, de cada empresa, constituiu um processo educativo que tende a permanecer como uma nova cultura em relação ao consumo de energia. As famílias converteram seus hábitos de consumo, empresas aplicaram-se em programas de racionalização no uso da energia e a eficientização dos equipamentos consumidores de eletricidade passou a ser padronizada em lei federal sancionada em outubro de 2001 — não por coincidência, no auge do período de racionamento.

O que se conseguiu em termos de conscientização para a racionalização, por força do racionamento, acho que não se conseguiria com cinco anos de programas tradicionais de racionalização.

O programa de racionamento foi apenas a parte mais visível de um ambicioso programa de reestruturação do setor elétrico brasileiro.

A Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, no uso dos amplos poderes que lhe foram concedidos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, promoveu um extenso acordo entre o governo e todos os agentes do setor elétrico. Foram solucionados, de forma definitiva, alguns antigos contenciosos que paralisavam investimentos e tornavam eminente um processo de inadimplência em cadeia e desestruturação do setor.

Um novo horizonte está sendo aberto para os investidores, com a desverticalização do setor elétrico obtida pela separação das empresas de geração, distribuição e transmissão. Os princípios básicos do modelo serão mantidos: competição na geração e comercialização e regulação na distribuição e transmissão, aliadas ao investimento privado e à existência de um órgão regulador independente.

A percepção que colhemos juntos aos investidores estratégicos, aqueles que fazem investimentos diretos, é de que as medidas que nos propomos adotar estão na direção correta e vão permitir a consolidação de um quadro regulatório adequado e propício ao investimento privado.

Por fim, será mantida a permanente preocupação do governo brasileiro com a questão do meio ambiente que sempre envolve a geração de energia elétrica. Os estudos de impacto ambiental, cada vez mais rigorosos, constituem um passo essencial na elaboração de qualquer novo projeto de geração. E, embora estejamos investindo em uma necessária diversificação da matriz energética, ela permanecerá predominantemente hídrica, o que implica dizer renovável e limpa. •
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