POR UMA AMAZÔNIA ECONOMICAMENTE SUSTENTÁVEL

por Ronaldo Seroa da Mota
Coordenador de Estudos de Regulação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

 

O“A PRESERVAÇÃO DA AMAZÔNIA GERA VANTAGENS EM BEM-ESTAR EM MAIOR MAGNITUDE PARA O MUNDO QUE PARA O BRASIL . NESSA LÓGICA, PODE-SE AFIRMAR QUE QUEM NÃO ESTÁ PRESERVANDO A AMAZÔNIA É O MUNDO, POR NÃO COMPENSAR OS BRASILEIROS PELOS SERVIÇOS AMBIENTAIS DA FLORESTA”

O termo política ambiental caracteriza-se por uma ação governamental que interfere na esfera da economia para alcançar objetivos que os agentes econômicos não conseguem obter atuando livremente. No entanto, há de se definir prioridades para se estabelecer uma política de conservação do meio ambiente que contemple critérios ambientais, biológicos, geográficos e também econômicos.

Os recursos ambientais têm atributos que, associados ao seu uso e à sua existência, afetam tanto a produção de bens e serviços privados quanto diretamente o consumo dos indivíduos. E seu valor econômico geralmente não é observável no mercado através de preços que reflitam seu custo de oportunidade.

No caso específico do desmatamento da Amazônia, como valorar esse custo?

Para responder à questão, é preciso considerar os seguintes fatores: o custo que a sociedade incorre por converter a floresta para fins agropecuários; os usos alternativos que a floresta teria para gerar uma renda sustentável e que tipo de receita ou atividade se poderia ter mantendo a Amazônia conservada.

E qual seria o valor de não-uso da floresta, o preço da conservação em si? Esse é um custo associado a um ganho de bem-estar que as pessoas teriam – umas muito mais que as outras. Caso a política de desenvolvimento para a região se orientasse pelo não-desmatamento, o Brasil teria o benefício de explorar a região de várias formas: ecoturismo, captação de carbono, bioprospecção e extração de madeira sustentável. Tudo isso ficaria internalizado na economia brasileira. Mas o valor de não-uso, esse ganho de bem-estar pela preservação da floresta, é uma vantagem que seria absorvida não só pelos brasileiros, mas por cidadãos do mundo inteiro.

A conservação da floresta implica benefícios que extrapolam a fronteira do Brasil: são globais, não domésticos. Na verdade, a preservação da Amazônia gera vantagens em bem-estar em maior magnitude para o mundo que para o Brasil. Nessa lógica, pode-se afirmar que quem não está preservando a Amazônia é o mundo, por não compensar os brasileiros pelos serviços ambientais da floresta. Se remunerasse, a preservação da Amazônia seria mais lucrativa para o Brasil que sua devastação.

Um pequeno proprietário de terra na Amazônia não pode se dar ao luxo de defender causas ambientalistas. O raciocínio dele não é comprar a terra para preservar, mas para gerar renda e garantir sua sobrevivência. Além do mais, as atividades que não implicam em desmatamento da floresta têm rentabilidade bem menor que a agropecuária. E ainda são mais arriscadas, porque a criação de gado tem um risco baixíssimo.

Uma solução seria esse proprietário preservar a floresta para exploração de princípios farmacêuticos. Mas quanto a indústria farmacêutica estaria disposta a investir para proteger essa biodiversidade? Um valor muito baixo porque seria preciso investir dinheiro sem garantia de sucesso. Mas o benefício social de um novo remédio é enorme. Essa também seria mais uma vantagem global. Então, qual seria a forma de motivar esse proprietário a conservar essa floresta?

A University College London, através do Center for Social and Economic Research on Global Environment, fez uma pesquisa em 500 domicílios europeus, que responderam à seguinte pergunta: quanto vocês estariam dispostos a pagar anualmente para um fundo ambiental da Organização das Nações Unidas (ONU) para preservar 5% da Amazônia? Para outros 500, indagaram qual seria a quantia que eles desembolsariam para conservar 25% da floresta. Daí temos o dado que mostra que cada família dos países ricos estaria disposta a pagar um valor médio de US$ 30 a 50 por ano para garantir a preservação da floresta. Observando-se que há 400 milhões de hectares na Amazônia e 400 milhões de famílias nos países ricos, conclui- se que cada hectare seria remunerado em, no mínimo, US$ 30. Esse valor é maior do que o obtido com o extrativismo.

Se a comunidade internacional realmente quer preservar a Amazônia, conforme vem pregando nas últimas décadas, só precisa disponibilizar essa quantia irrisória por domicílio a cada ano. Se criassem um imposto que gerasse esse recurso para a floresta e se essa quantia fosse distribuída entre os proprietários, eles também prefeririam preservar. Não haveria atividade agropecuária que rendesse mais.

A proposta que algumas organizações vêm defendendo a fim de viabilizar a conservação da Amazônia é a remuneração em US$ 50 por ano: 30 para a preservação e 20 para a bioprospecção. Com esse recurso, o governo brasileiro implementaria uma política de compensação ambiental na Amazônia para pagar pelo serviço de preservação aos proprietários da terra. Grande parte dos proprietários preferiria usar esses recursos a desmatar.

No entanto, é preciso lembrar que existem áreas na Amazônia em que a qualidade da terra é excelente e o sistema de transporte hidroviário, muito eficaz. Isso se traduz numa altíssima rentabilidade da agropecuária. Para essas áreas seria preciso uma política alternativa, que organizasse o desmatamento através de um sistema de concessão agropecuária. Essa medida consistiria em leiloar aquelas terras devolutas para as grandes empresas de agronegócio.

Seria um sistema nos moldes da concessão florestal. O resultado seria um desmatamento organizado e eficiente, que representaria o fim da grilagem, já que os grandes grupos de agropecuárias comprariam as terras de maneira legal. Hoje, o desmatamento na Amazônia se dá, basicamente, através da ação de grileiros, que agilizam a ocupação da área pública. Cerca de 30% da área desmatada da floresta não foram usados porque esse processo de grilagem errou: apostou na expansão da agropecuária numa direção que não se concretizou.

Com esse novo modelo, o governo poderia, ainda, regular melhor essa atividade ao exigir, por exemplo, que nessas áreas não se cultivassem transgênicos. Seria uma agricultura ecologicamente consciente que obteria um retorno de qualidade incrível. Essa é uma proposta para reduzir o desmatamento enquanto esses recursos dos países ricos ainda não estão disponíveis.

A medida inibiria a ocupação das terras públicas da Amazônia - que hoje representa 60% da área ainda preservada. Se a terça parte desse total fosse disponibilizada para a agropecuária, os 40% restantes seriam transformados em unidades de conservação. Se adicionarmos os 30% que já existem de reserva indígena, o resultado seria uma Amazônia 70% conservada. Nenhum bioma do mundo teria tal nível de preservação. O Brasil seria a única nação do mundo a ter uma floresta com esse nível de preservação. Nenhum país tem mais que 10% de área verde preservada.

Esse altíssimo percentual de preservação não comprometeria nosso desenvolvimento econômico. Muito pelo contrário, já que destinar 20% da Amazônia à agropecuária é dobrar a área cultivável do Brasil. Aí atingiríamos um ponto de equilíbrio: aliar os benefícios da conservação aos da conversão.

Há 15 anos fizemos proposta de reformular o projeto de florestas nacionais no Brasil para floresta produtiva, onde você faria concessões enormes na área dessa terra pública na Amazônia para a exploração madeireira sustentável. A idéia principal é: se vai explorar madeira, é melhor organizar sob a égide da concessão. Para ser bemsucedido, teria de envolver o grande capital e organizações não-governamentais como a WWF e o Greenpeace para fiscalizar. Uma vez estabelecida a unidade de conservação, o grileiro não poderá obter registro dessa terra no Incra. O grande problema ambiental é a indefinição dos direitos de propriedade. Uma vez definidos esses direitos, o dono de cada propriedade passa não só a ganhar com a exploração, mas também perde com a degradação.

A proposta do fundo internacional de preservação da Amazônia vem sendo discutida há mais de 20 anos. O entendimento é que o dinheiro seria arrecadado pela ONU e gerido pelo governo brasileiro. Assim, não haveria transferência de propriedade. O país determinaria onde e como seria aplicado esse recurso. O impasse com que nos deparamos hoje não é resolvido porque os países ricos não querem pagar por esse serviço de preservação. Esse problema ambiental é usado por eles para enfraquecer posições do governo brasileiro em questões internacionais. De certa forma, funciona como instrumento de pressão.

A equação é simples. O desmatamento ocorre porque do ponto de vista de curto prazo do proprietário da terra é vantajoso. É ruim para o planeta, mas é a forma de obtenção de renda desse proprietário. Para suspendê-la, o mundo teria de remunerá-lo. E assim teríamos uma preservação economicamente viável.