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Assegurar o suprimento
ininterrupto de energia às necessidades de um país é preocupação
permanente de todo governante. Numa economia global, com reservas
declinantes de petróleo, ou em poder de países politicamente
instáveis, essa tarefa se torna realmente árdua.
O petróleo ocupa um
posição de destaque no uso de energia do Brasil, representando
uma parcela considerável de nossa matriz energética, como
mostrado no diagrama a seguir. À medida que a economia da
China se expande, cresce tambem a procura mundial por petróleo,
gás, carvão e eletricidade. A consequência disso, combinada
com a permanente demanda do mercado norte-americano, faz com
que dificilmente o preço do barril de petróleo caia abaixo
do nível de 60 dólares, impactando toda a economia mundial.
E o Brasil não é uma excessão nessa escalada. Tudo indica
que a alta do petróleo veio para ficar.
Por outro lado, nem
todo petróleo é igual. Apesar do Brasil ter atingido a auto-suficiência
em petróleo, essa “commodity” aqui produzida é do tipo pesado,
exigindo ainda uma “operação de troca” com tipos leves, importado
de outros países, para atender parte de nosso parque de refino.
Dessa forma, continuamos sendo influenciados pela escassez
e pelos altos preços do petróleo leve, no mercado mundial.
O que fazer para sair dessa situação?
O Brasil já detém uma
posição privilegiada no mundo, como o maior usuário de energia
renovável, superando a oferta de petróleo em 5%. Essa é uma
excelente posição. Entretanto, um resultado ainda melhor poderá
ser obtido com o aumento do uso de gás natural - hoje ainda
incipiente na matriz energética. As reservas de gás natural
no mundo são maiores que as de petróleo. Dos combustíveis
fósseis conhecidos, o gás natural é o que apresenta menor
impacto ambiental, por conter em sua molécula somente um átomo
de carbono. Melhor mesmo do que alguns combustíveis renováveis,
e apresentando ainda uma versão “renovável”, que é o biogás,
de baixíssima utilização em nosso país. Em alguns países europeus,
como a Suécia e a Suíça, já se emprega o biogás proveniente
de aterros hidráulicos, rejeitos da agropecuária e resíduos
de biomassa, misturados com gás natural e distribuídos como
gás canalizado, em proporções que se aproximam de cinquenta
por cento.
A diversificação das
fontes de energia é importante para a sustentabilidade da
segurança energética, assim como a origem dessas fontes. Não
se pode dizer que o Brasil disponha – ou possa mesmo dispor
no futuro – de reservas próprias de gás natural suficientes
para atender a sua demanda, no caso da substituição de alguns
combustíveis tradicionais. Na América do Sul, alguns países
– como a Venezuela, Bolívia, Trinidad-Tobago e Argentina –
destacam- se como os de maiores reservas de gás natural do
continente. Isso torna favorável uma possível composição que
possa vir atender aos interesses brasileiros em alianças com
alguns de seus vizinhos. Por outro lado, requer extremos cuidados,
para que não se caia na armadilha fácil da política de poder
sobre os gasodutos.
No início deste ano,
quando a Rússia cortou o suprimento de gás para a Ucrânia,
toda a Europa ficou alarmada. E alguns outros países interligados
a esse sistema de gasodutos – como a França e a Itália – que
nada tinham a ver com o problema, sofreram restrições na oferta
de gás que vinham consumindo. Alguns países europeus começaram
então a indagar, até que ponto teriam sido ingênuos em confiar
numa única origem de suprimento de gás para atender às suas
necessidades. Pode-se argumentar que o gás seja mais vulnerável
a imprevisíveis interrupções de suprimento. De fato, na maioria
dos mercados de gás, a ligação da produção ao ponto de consumo,
através de gasodutos, envolve um compromisso de exclusividade,
difícil de ser desfeito, dadas as enormes consequências que
isso acarretaria tanto ao produtor quanto aos consumidores
de gás.
Essa peculiaridade é
muitas vezes manipulada politicamente pelo país produtor,
como há pouco tempo ocorreu com a Rússia. Diante dessa realidade,
vem surgindo rapidamente na Europa um enorme mercado de comercialização
de Gás Natural Liquefeito (GNL), mais do que dobrando o seu
tamanho nos últimos dez anos. A expectativa é que esse mercado
receba mais de US$ 100 bilhões em investimentos na próxima
década. Isso tem grandes implicações para a indústria de gás.
Agora, se tornou possível a importação de gás a partir de
longas distâncias, negociada com o mercado, de diversas regiões
produtoras, e a preços competitivos.
Face a essa realidade
e examinando nossa curta experiência com o gasoduto Brasil-Bolívia
e as intermináveis discussões relativas a constantes revisões
dos acordos assinados, cabe a nós brasileiros perguntar: até
que ponto devemos gastar esforços em examinar o projeto de
um possível gasoduto originado na Venezuela para atender a
demanda do Brasil e da Argentina? Será que um gasoduto com
a Venezuela vai nos trazer tranquilidade, em termos de segurança
energética? Os investimentos nesse projeto são estimados entre
US$ 20 e 25 bilhões, atravessando a Região Amazônica – o que
implica sérios riscos ambientais. Em vez disso, talvez fosse
o momento de investirmos no GNL. Afinal, nada impede que a
própria Venezuela produza e forneça o gás na forma liquefeita.
Poderíamos ter um contrato com eles, assim como com outros
produtores. Seríamos aliviados da questão da exclusividade
e de possíveis manipulações políticas e instabilidades.
E ainda teríamos outras
opções de suprimento – o que nos colocaria em posição de defender
o que é melhor para o Brasil. Não seria esse o caminho para
a sustentabilidade da segurança energética de nosso país?
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